Um estudo publicado em 2025 no BMJ Evidence-Based Medicine [1] trouxe dados que merecem atenção de qualquer médico que cuida de pacientes adultos — e especialmente de quem trabalha com saúde mental. Os resultados desafiam uma crença que circulou por décadas: a de que o consumo moderado de álcool poderia ser protetor para o cérebro.

Como médico com atuação em saúde mental em Taubaté, com experiência em CAPS AD e ambulatórios de psiquiatria, acompanho há anos as consequências do uso de álcool sobre a cognição e o comportamento. Este estudo traz evidências que reforçam o que a prática clínica já sugeria — e que precisam chegar de forma clara até nossos pacientes.

Estudo de referência

Topiwala A et al. — BMJ Evidence-Based Medicine, 2025

"Alcohol use and risk of dementia in diverse populations: evidence from cohort, case-control and Mendelian randomisation approaches"
Amostra: 559.559 adultos (análises observacionais) + 2,4 milhões de participantes (análises genéticas)

O que o estudo fez — e por que é diferente

A grande inovação deste trabalho está no método. Estudos observacionais anteriores tinham uma limitação séria: pessoas que desenvolvem demência frequentemente reduzem o consumo de álcool anos antes do diagnóstico — o que criava artificialmente uma aparência de "proteção" do álcool moderado.

Este estudo utilizou randomização mendeliana — uma abordagem genética que usa variantes do DNA como "instrumentos naturais" para estimar o efeito causal do álcool ao longo de toda a vida, sem as distorções dos estudos observacionais tradicionais. É, em essência, o método mais próximo que temos de um ensaio clínico randomizado para esse tipo de questão.

O que os dados mostram

Os achados observacionais confirmaram o padrão em "U" já conhecido: não bebedores e bebedores pesados tinham mais demência do que bebedores leves. Isso levaria à conclusão de que beber pouco seria protetor.

Mas quando os pesquisadores usaram a análise genética, o quadro mudou completamente:

Conclusão central do estudo: O aparente efeito protetor do consumo leve de álcool, observado em estudos anteriores, é provavelmente explicado pela causalidade reversa — pessoas que já estão desenvolvendo demência reduzem o álcool antes do diagnóstico, e não o contrário.

O que isso muda na prática clínica

Na minha visão como médico que atende pacientes adultos em saúde mental, esses dados têm implicações diretas:

O impacto potencial em saúde pública

Os autores estimam que reduzir à metade a prevalência do transtorno por uso de álcool na população poderia diminuir os casos de demência em até 16%. Em um país como o Brasil, onde o uso de álcool é cultural e socialmente normalizado, esse número é expressivo.

Estudos corroboradores, incluindo análises da Alzheimer's Society [2], do The Lancet eClinicalMedicine [3] e da Universidade de Oxford [4], apontam na mesma direção: qualquer nível de consumo de álcool aumenta o risco de demência, e os efeitos protetores anteriormente descritos são metodologicamente questionáveis.

Uma reflexão clínica

Durante anos de atendimento em CAPS AD, ambulatórios de saúde mental e pronto-socorros, vi de perto o quanto o álcool compromete não apenas o humor e o comportamento, mas a cognição — de forma silenciosa e progressiva. Esses novos dados genéticos vêm confirmar o que muitos de nós já suspeitávamos clinicamente.

A mensagem para nossos pacientes precisa ser clara, compassiva e baseada em evidência: o álcool não protege o cérebro. Reduzir o consumo — ou cessá-lo — é uma das ações mais concretas que alguém pode tomar para preservar a saúde cognitiva ao longo da vida.

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Dr. Eduardo Mimessi

Dr. Eduardo D'Angelo Mimessi

Médico com pós-graduação em psiquiatria, 18 anos de experiência em saúde mental. Atuação em CAPS AD, pronto-socorro psiquiátrico e consultório particular em Taubaté SP. CRM SP 121.217

Referências

  1. Topiwala A, Levey DF, Zhou H, et al. Alcohol use and risk of dementia in diverse populations: evidence from cohort, case-control and Mendelian randomisation approaches. BMJ Evidence-Based Medicine. 2025. ebm.bmj.com
  2. Alzheimer's Society. Alcohol and the risk of dementia. alzheimers.org.uk
  3. Association between alcohol consumption and incidence of dementia. The Lancet eClinicalMedicine. 2024.
  4. University of Oxford. Any level of alcohol consumption increases risk of dementia. 2025. ox.ac.uk
  5. Alzheimer's Society UK. Alcohol-related brain damage (ARBD). alzheimers.org.uk
  6. Addiction Policy Forum. New study shows even light alcohol use increases risk of dementia. 2025.
  7. G1 Globo. Álcool aumenta risco de demência mesmo em pequenas doses, mostra estudo. 2025.
  8. Jornal da USP. Consumo de álcool está associado a lesões cerebrais ligadas à demência. 2025.